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Friday, February 11, 2005

Sobra 

Ela pensava:
O que sobra quando acaba aquela admiração que se tinha pela pessoa ?
O que sobra quando, depóis que a chama se apaga, você olha pra trás e não vê mais do que cinzas?
O que sobra quando o coração não bate mais forte, não se sobressalta com aquela que foi a música tema da sua vida?
O que sobra quando já não há mais sonhos, nem castelos, nem mesmo de areia, quando se fecham os olhos ?
O que sobra quando tudo aquilo que o preenche são suas entranhas e um espaço vazio no peito ?
O que sobra quando as lembranças mais machucam do que fazem sorrir?
Pior ainda, o que sobra quando as memórias são quase como filmes europeus que se assiste no cinema antigo de uma fria tarde de inverno?
É..enfim, ela percebeu que não sobrava nada...

Wednesday, February 09, 2005

Lembranças 

A vida recomeçava. Mais um dia de trabalho.
Depois de uma noite imerso em tantos pensamentos.
Agora sua vida era outra. Tão diferente de algum tempo atrás. Agora sua vida era intensa, mas tranquila. Como se conseguisse sentir o gosto das gotas de chuva, a temperatura do sol, ouvir o barulho dos carros, enfim, tomar consciência de tudo, de tudo que sempre esteve ali, mas que ele, na correria da vida, nem percebia.
Mas ainda havia momentos em que parava e as lembranças vinham. Uma música, um comentário, um filme, um anúncio na televisão, flashes de memória.
Ele preferia apagar, esquecer.
Todos dizem que é sinal de maturidade aceitar que o relacionamento acabou, que as pessoas mudam, e que no caso deles foi assim, eles mudaram e a relação não sobreviveu. Só que ele não queria ser maduro. Seu único desejo era conseguir seguir em frente. Seguir com sua vida. Desancorar daquela que havia sido sua verdade por tanto tempo e que agora era simplesmente ilusão. Por isso, preferia esquecer, como se nunca tivesse passado por aquilo. Como se ela nunca tivesse existido, muito menos em sua vida.
E riu sozinho no carro. Uma pessoa cantava no rádio que "fazia das lembranças um lugar seguro". Com ele era exatamente ao contrário: as lembranças formavam o único mar onde ele não queria, e nem podia, navegar; o único lugar que não era seguro. Apesar de toda a indefinição inerente ao futuro e de toda a sorte de imprevistos que preenchem o presente, ali estava sua segurança, seu norte, seu leme.


Sunday, February 06, 2005

Bailarina 

Mamãe, mamãe! Eu quero ir de bailarina ! Isso, a rosa !
Mamãe, eu não estou linda? Eu sou a bailarina !
Bota purpurina, quero ficar brilhante. Sou a linda bailarina.
Meia arrastão. As sapatilhas, não podemos esquecer as sapatilhas !
Sou a bailarina mais bonita, não é mamãe ?
No meio destes índios, batmans, melindrosas e palhaços, eu sou a bailarina!
Mamãe, aqueles moços lá longe também estão dançando mas não estão todos iguais. Uns caem para um lado, outros para outro. E riem alto, com latinhas na mão. Eu, não, sou a bailarina, de rosa e purpurina, que dança ao som da banda, o meu "sambalé". Melhor que Lago dos Cisnes, porque eu posso jogar confetes em quem eu quiser.
Me responde, mamãe: não sou a bailarina mais linda que você já viu ?

Feliz Aniversário 

Ele chegou em casa. E embaixo da porta havia um envelope. Rasgou. Dentro, um cartão de aniversário.
"Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida! Nunca vou te esquecer!..."
Sem assinatura.
Não precisava. Ele reconheceu aquela caligrafia desde a primeira letra.
Ela, que foi a grande paixão da sua vida.
Ela, que foi embora sem dizer porquê, que foi embora sem dizer adeus, que simplesmente foi.
E depois de tantos anos, reaparece assim, sem nenhum aviso prévio, no seu aniversário.
Pegou o envelope para verificar a data. Sim, tinha sido postado dois dias antes. Ela calculara certo, como sempre.
Releu o cart]ao, frase por frase, letra por letra.
Ali não havia promessas, não havia intenção de recomeço, não havia sequer espaço para reencontro. Nada.
Mas estava ali a mensagem mais importante de sua vida, até agora. Que ela, assim como ele, nunca o esqueceria.

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