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Wednesday, February 09, 2005

Lembranças 

A vida recomeçava. Mais um dia de trabalho.
Depois de uma noite imerso em tantos pensamentos.
Agora sua vida era outra. Tão diferente de algum tempo atrás. Agora sua vida era intensa, mas tranquila. Como se conseguisse sentir o gosto das gotas de chuva, a temperatura do sol, ouvir o barulho dos carros, enfim, tomar consciência de tudo, de tudo que sempre esteve ali, mas que ele, na correria da vida, nem percebia.
Mas ainda havia momentos em que parava e as lembranças vinham. Uma música, um comentário, um filme, um anúncio na televisão, flashes de memória.
Ele preferia apagar, esquecer.
Todos dizem que é sinal de maturidade aceitar que o relacionamento acabou, que as pessoas mudam, e que no caso deles foi assim, eles mudaram e a relação não sobreviveu. Só que ele não queria ser maduro. Seu único desejo era conseguir seguir em frente. Seguir com sua vida. Desancorar daquela que havia sido sua verdade por tanto tempo e que agora era simplesmente ilusão. Por isso, preferia esquecer, como se nunca tivesse passado por aquilo. Como se ela nunca tivesse existido, muito menos em sua vida.
E riu sozinho no carro. Uma pessoa cantava no rádio que "fazia das lembranças um lugar seguro". Com ele era exatamente ao contrário: as lembranças formavam o único mar onde ele não queria, e nem podia, navegar; o único lugar que não era seguro. Apesar de toda a indefinição inerente ao futuro e de toda a sorte de imprevistos que preenchem o presente, ali estava sua segurança, seu norte, seu leme.


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