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Thursday, December 30, 2004

Manhã 

Encostou-se no parapeito da varanda. A brisa leve de um dia que se anunciava quente lhe balançava suavemente os cabelos. À sua frente um cartão postal da cidade.
Mas ali estavam os prédios mais luxuosos entremeados pelos barracos. A riqueza convivendo com a pobreza. A realidade nua e crua da desigualdade.
Só que ela não estava pensando nos problemas cruciais da humanidade. Sua cabeça estava envolvida em seus próprios problemas, o seu próprio mundo a absorvia por completo.
Ela só estava ali para ver um novo dia nascendo, para ter certeza de que sobrevivera, para se certificar que teria forças para viver mais um dia. Queria sentir a vida lhe enchendo os pulmões.
Sabia que agora iria ser assim: um dia a cada vez. Pelo menos por um tempo. Dizem que o tempo cura tudo. Com ela não haveria de ser diferente.

Monday, December 27, 2004

Encruzilhada 

Estava nervosa na sala de espera. Sua vez. Confirmava suas suspeitas. Não há duvidas, doutor? Não. Ela estava mesmo grávida.
Sua cabeça começou a girar. Era uma pessoa tão inteligente, instruída...como deixara aquilo acontecer?! Uma única vez, um único deslize.
Seu pensamento entrava num turbilhão de perguntas. E agora, o que fazer? Conto ou não conto a ele? Tento me casar? Mas foi só um rencontro furtivo com ex-namorado, não estava nos meus planos passar o resto da vida ao seu lado. Conto para os meus pais? Mais importante de tudo: tenho a criança, ou aborto? Sou jovem, mas tenho idade e condição suficiente para sustentá-la, mas quero alterar a minha vida dessa forma? Sou católica e contra o aborto...Mas agora é COMIGO, é diferente... Perder minha juventude...Quem vai querer casar com uma mãe solteira? Como é a vida de uma mãe solteira? Mas se eu abortar e ninguém souber, será que fica mais fácil de esquecer com o passar do tempo? Devo matar essa vida para poder viver os planos que tenho pra minha? Eu tenho comigo o telefone de uma clínica que resolveria esse problema...ligo ou não ligo?
Não conseguia chegar a nenhuma resposta, somente mais perguntas. Muitas dúvidas, um mar delas.
Foi direto para a igreja rezar. Pediu que Deus iluminasse seu pensamento e a ajudasse a tomar aquela decisão tão difícil. E rezando, chorava. Queria ouvir uma voz lhe respondendo o que fazer. Mas não ouviu. Ficou lá por duas horas e não ouviu nenhuma voz.
Inconsolada, foi embora. Entrou no metrô. Sentou-se. Olhava para o infinito, mas não via nada. Na sua frente sentou-se uma mulher humilde, carregando em um dos braços uma pesada sacola, e no outro um bebê, quase uma criança.
Ela se esforçou pra não olhar. Era doloroso demais.
Olhava para janela. Quando sentiu um calor na sua pele. A menininha usara toda a sua mãozinha para envolver seu dedo indicador. Quando ela se virou, a meninha sorria pra ela. E aquele sorriso lhe tocou o coração. Sem explicação, tocou-lhe de uma forma profunda.
Chegou à sua estação. Saltou. Não tinha idéia das consequências que aquilo iria lhe trazer, mas tomou a decisão que iria mudar a sua vida para sempre.

Sunday, December 26, 2004

Reencarnação do Tempo 

Sentia-se como se já estivesse em sua segunda encarnação.
Era quase isso. Teria que recomeçar.
E queria mesmo que tudo o que tivesse vivido até ali saísse do seu consciente. Fosse para seu inconsciente, e que só pudesse recorrer a ele através de hipnose.
O exercício de imaginação de colocar tudo num saco, e o saco numa arca, amarrá-la com corrente e lançá-la num rio muito profundo não estava dando certo. A dor gritava. E o grito ecoava pelas águas do rio e preenchia todo o ambiente.
Era inútil.
Infelizmente não era Agente Secreto, que vive para morrer outro dia. Nem Mulher Gato para ter mais de uma vida. E, católica, não acreditava em reencarnações.
Só o tempo poderia calar aquela dor, só o tempo poderia fechar aquela porta. Ela estava disposta a trancá-la, com a chave na mão. Mas o cadeado só estaria disponível com o tempo.
Ela decidiu se sentar para esperá-lo...

Os olhos 

Os olhos se cruzaram. Uma única vez. Mas foi intenso. Parecia uma energia contida em uma usina nuclear estourando de uma só vez.
Não sabiam seus nomes, nem sequer haviam se visto antes. Mas seus olhos se cruaram e se acompanharam enquanto se distanciavam.
Não repararam nos seus corpos, nem mesmo nos rostos. Somente os olhos, como faróis da alma.
Foi uma única vez, há muito tempo, e até hoje ele ainda lembra daquele brilho. Não passa um só dia sem que ele se pergunte de quem eram e o que tinham para dar aqueles olhos, tão cheios de vida, de ingenuidade, de ternura, de transparência.
Ele nunca vai descobrir. Por mais que pergunte às estrelas à noite, elas não lhe responderão. Somente o farão lembrar daquilo que ele nunca esqueceu...

João e Maria 

Eles chegaram num hotel cinco estrelas, a última parada antes de voltarem para casa. O fim de uma viagem que era para ser de sonhos, mas que teve uma dose muito grande de realidade, maior do que eles puderam suportar. Foram dias de sol em praias selvagens, vulcões. Estavam sempre um ao lado do outro, mas ao mesmo tempo se sentiam sozinhos. Silêncio. Muito silêncio. Aquilo era mais que perturbador. Era uma sentença.
Entremeados de noites de amor. Naquelas horas o mundo não importava, nada mais importava, só os dois. Naqueles momentos havia comunhão. Mas saciados os corpos, as almas se separavam. Mas a última noite da viagem foi de luxo, de paixão. Uma maravilhosa banheira de água quente. Os dois sentaram e descansaram. Estavam aliviando a tensão que acumularam nos últimos 10 dias, nos últimos 6 meses, nos últimos 2 anos.
Silêncio entre eles mais uma vez. Mesmo sem nada dizer, sabiam que aquela seria a última. Estavam fechando com chave de ouro.

Agora era fatal que o faz de conta terminasse assim ...
Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim ...

5 anos e 3 meses acabaram ali. Os dois chorando, ainda abraçados, mas certos de que aquilo era o fim. E de que o fim era o melhor que podiam fazer, pois haviam feito de tudo, chegaram a ultrapassar seus próprios limites. A partir dali, começariam duas novas vidas, pois só agora poderiam ter a certeza de que deveriam tocar pra frente, sem olhar pra trás.

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